A resposta que os fãs de Manowar mereciam

terça-feira, 9 de outubro de 2012



Acima vocês podem conferir a capa da versão americana de "The Lord Of Steel", novo álbum do Manowar. Na verdade, o álbum já foi lançado na Europa, mas somente no mês que vem chega as lojas americanas. Parece que a singela capa da versão européia não convenceu, então eles chamaram o artista Ken Kelly para criar uma nova capa onde estivem presentes o maior número de clichês possíveis. Temos guerreiros, vulcões, crânios, armas cobertas de sangue, serpentes, demônios e todas essas outras coisas que os fãs da banda adoram.
Mas não é sobre isso que vamos falar nesse post, nenhum de vocês jamais vai ler qualquer a matéria do Manowar aqui no All That Metal levando a banda a sério. Sinto muito, fãs da banda, contentem-se com isso. Apesar disso, vamos tentar falar um pouco a sério da banda, especificamente de um vídeo que vocês podem conferir a seguir. Trata-se da cobertura do jornalista Régis Tadeu no show que a banda realizou em São Paulo, no ano 2010. Na ocasião, ele queria provar os motivos pela qual acredita que o Manowar é banda mais ridícula do mundo, sendo devidamente hostilizado pelos fãs.
Assistam o vídeo e leiam alguns comentários que temos logo a seguir.
Ok, agora que vocês assistiram o vídeo, vamos comentar algumas coisas de forma mais detalhada. Pra começo de assunto, eu não acompanho o trabalho de Régis Tadeu e não faço muita questão de ir mais a fundo nos trabalhos dele. Mas uma coisa posso concordar: o Manowar é uma banda que não tem absolutamente nada de mais em seu som, além de sua estética ser absurdamente ridícula. Mas não vou me prender a essa simples afirmação, vou dar bons argumentos para essa afirmação que fiz. Ou melhor, vou dar as respostas que Régis não quis dar aos fãs, ou não teve coragem por já estar sofrendo uma certa hostilidade por parte dos fãs naquele momento.
Primeiro vamos falar do camada que acredita que as letras do Manowar são úteis. Ele alega que tais obras acrescentam muito ao seu gosto por cultura medieval. O que seria uma afirmação correta se essa mesma temética medieval pudesse ser resumida a Conan. Nada contra as histórias do lendário bárbaro, pelo contrário, mas tratando-se de riqueza em conteúdo e enredo, existem centenas de obras que podem acrescentar ainda mais a um admirador de fantasia medieval. E o fato de eu ter me refiro especificamente ao Conan, é graças ao visual aderido pela banda nos anos 80, como vocês podem conferir na foto abaixo.


Decidi escolher uma imagem mais 'light', pois não quero saber de relatos de leitores que tiveram uma hemorragia através dos olhos depois de ver eles de sunga e cobertos de óleo. Quem conhece, sabe do que estou falando, e que não conhece que procure no Google. Mas tudo bem, não vamos nos prender a essa questão estética, até porque a banda mudou seus padrões de imagem (felizmente!). E ao mesmo tempo, eu não consigo imaginar que ainda existe algum tipo de ser humano que pode levar isso a sério. 
Voltando a questão que envolve cultura medieval, ou melhor, fantasia medieval. Sejamos francos: as letras do Manowar são totalmente enfadonhas, sem sentido e repetitivas. Me desculpem, mas não vejo nada com conteúdo em seus trabalhos. A maior parte resume-se a guerreiros em um mundo fantástico, sempre com bordões relacionados ao quanto o Heavy Metal é poderoso e imortal. Fora isso, ainda temos um vocabulário demasiadamente singelo e cheio de clichês. Eu mesmo acreditava que eles já tinham algum álbum ou música com o nome do novo álbum, "The Lord Of Steel". Tem coração de aço, segredo de aço, aço com fogo e vento negro. Temos também muitos reis e reinados, exércitos de mortos e imortais, hinos de batalha e hinos para guerreiros imortais, muito poder e, acima de tudo, guerreiros de todos os tipos. 
Mas agora eu pergunto, onde está o conteúdo disso tudo? Será que esses fãs de Manowar realmente acham isso um mundo rico tratando-se de fantasia medieval? Prefiro acreditar que isso serve como prato de entrada para um mundo a parte permeado por obras literárias épicas, games fenomenais e RPG de mesa. Só que, uma vez que você já tenha terminado o primeiro grau, não faz o menor sentido seguir acreditando que o Manowar pode acrescentar algo a esse interesse tão comum nos dias de hoje. 
Para que eu não fique apenas falando sobre isso, vou citar alguns exemplos práticos. Vamos começar pelo precursor desse gênero a qual sempre fui um grande admirador também. Vamos falar de J.R.R. Tolkien. E das inúmeras bandas influências pela obra desse gênio, nenhuma teve tamanho reconhecimento como o Blind Guardian. Em 1998, a banda lançou o álbum "Nightfall In Middle-Earth", uma adaptação da obra "O Silmarillion", uma criação mitopoética de Tolkien para contar várias passagens da história de seu mundo fantástico, a Terra-Média. O álbum tornou-se um clássico da banda alemã e traz canções que tornaram-se obrigatórias e toda apresentação da banda. É óbvio que não temos uma adaptação perfeita da obra de Tolkien, mas a banda merece todos os méritos por ter feito o melhor possível na difícil tarefa de criar um álbum conceitual inspirado em um livro tão conhecido e admirado por fãs de fantasia medieval. A faixa a seguir aborda os personagens Beren e Lúthien, quando Lúthien canta uma canção que comove Mandos, O Senhor dos Mortos, e opta por permanecer na Terra-Média, como uma mortal, ao lado de Beren ao invés de partir para Valinor e alcançar a vida eterna como uma elfa.


Temos ainda as bandas que optam por criar seus próprios mundos fantásticos. Dois bons exemplos disso vocês podem conferir logo a seguir. O primeiro é do lendário vocalista Ronnie James Dio, que em 2000 lançou o álbum "Magica", onde nos apresenta um mundo criado por ele próprio. O trabalho foi inicialmente planejado para ser uma trilogia, mas nunca veremos sua conclusão uma vez que o vocalista nos deixou após perder sua batalha contra o câncer, em 2010. O segundo exemplo é o do mega projeto Avantasia, liderado por Tobias Sammet, que chamou alguns dos mais renomados músicos do Power Metal para participar da Metal Opera. A história tem Gabriel Laymann como personagem principal, e cada vocalista convidado representava um personagem diferente da história. 



Eu aposto que muitos fãs de Manowar, se conseguiram chegar até aqui no texto, devem estar pensando "ah eles tem o 'Gods Of War' que é sobre mitologia nórdica". E daí? Deixem a mitologia nórdica para os nórdicos! Eles já fazem isso há muito tempo e o Manowar, queiram ou não, jamais vai fazer isso de uma forma melhor. Pelo contrário, o conteúdo do álbum é absurdamente simplório e em nada acrescenta para uma pessoa que já tem plenos conhecimentos a respeito das lendas escandinavas. Gostem ou não de Burzum, ninguém jamais vai abordar a mitologia nórdica melhor que Varg Vikernes.


Resumindo, a cultura da fantasia medieval sempre esteve intimamente ligada a vários subgêneros do Metal, eu poderia citar outras dezenas de bandas que tem a mesma temática lírica. Mas, com certeza, o Manowar é uma das bandas mais pobres nesse quesito que envolve conteúdo e criatividade.
Mas vamos voltar ao vídeo que originou esse post. Temos um entrevistado que acredita que Manowar e Judas Priest  são as bandas mais True Metal que existem. Me desculpe, mas essas duas bandas estão em patamares bem diferentes. Eu sempre costumo falar, o Priest é a banda responsável por fundamentar o Heavy Metal como o conhecemos hoje em dia, todo mundo foi influenciado, direta ou indiretamente, por essa banda inglesa. Mas ao contrário do Manowar, o Priest evoluiu muito ao longo do tempo, em todos os aspectos possíveis, a banda renovou sem som e sua imagem sem perder sua autenticidade. O Manowar veio bem depois do Priest, quando já havia criado-se a base do gênero no que se diz respeito a musicalidade, a estética e a temática medieval, que já era abordada por bandas bem antes do Manowar. Da mesma forma, a evolução do som da banda ao longo do tempo foi pequena, e isso não diz respeito a manter-se fiel as suas origens, visto inúmeros casos de bandas que souberam ampliar seus horizontes sem desviar-se do intuito inicial. A única diferença que nota-se através dos anos é o padrão de qualidade das produções, chegando a seu ápice no já citado "Gods Of War", onde temos um Manowar soando mais épico.
Ainda sobre esse mesmo entrevistado, se o Manowar não é uma banda poser, eu não sei o que falar sobre esse vídeo:


O vídeo ainda serve como bom exemplo para uma moça que foi entrevista logo mais. Ainda bem que ela diz não levar muito a sério o som da banda, mas não também não dá pra negar que sim, o Manowar é uma banda assumidamente machista. Não existe espaço para o triunfo feminino dentro do mundo homoerótico do Manowar. Elas ficam relegadas a segundo plano, servindo apenas como groupies que pegam carona em suas motos. Mais uma vez, clichês! Histórias mais contemporâneas de fantasia medieval já incluem a mulher com um papel muito mais decisivo do que anteriormente, algo mais próximo da realidade de nossa sociedade atual. Até porque, as próprias mulheres também consumem esses mesmos produtos que há décadas atrás era voltado exclusivamente ao público masculino. Mulheres também gostam de ler O Senhor dos Anéis, assistem Game Of Thrones, jogam D&D e levam a sério jogos como World Of Warcraft ou Skyrim. Se você acha isso raro, me desculpe, mas você está no círculo social errado. Mas no mundo do Manowar isso é expressamente proibido, uma vez que continua sendo aquele pensamente retrógrado de que somente os homens másculos e poderosos fazem as coisas acontecerem.
Nem vale muito a pena comentar sobre o camarada que tornou esse vídeo conhecido, alegando que Manowar é tudo na vida dele e gerando um coro nada amistoso contra Régis Tadeu. Prefiro acreditar que ele estava bêbado, e se não estava só lamento. Mas tudo bem, cada um é dono de sua própria vida, seja feliz com o Manowar sendo tudo na sua vida, champz!
Mesmo considerando isso tudo, também não vamos desmerecer a importância do Manowar na história desse gênero musical. Só que, mesmo assim, esse legado do Manowar foi destruído pela própria banda, que adotou uma postura ridícula ao longo de sua carreira. Eu, sinceramente, achei que esse tipo de postura de "guerreiros que lutam pelo Metal" havia sumido há cerca de 10 ou 15 anos atrás quando os então fãs de Manowar adentraram o ensino superior. Mas pelo visto eu estava enganado. Ainda existem pessoas que levam a sério esse tipo de conduta da banda, que não passa de uma grande jogada de marketing, um mundo fantástico que do entrenimento barato passou a ser algo exaltado como uma religião dentre os seguidores da banda.
Pra finalizar, apenas mais alguns comentários sobre a questão da sonoridade da banda. As pessoas acusam bandas como AC/DC e Slayer de sempre fazerem o mesmo álbum. De fato, isso acontece, mas o Manowar mantém ainda mais os seus padrões musicais. O Slayer, por exemplo, tornou seu som mais elaborado ao longo dos anos, não ao ponto do virtuosismo ou experimentalismos obviamente, mas eu sinceramente não acho que álbuns como "Hell Awaits" e "God Hates Us All" soam parecidos. A própria abordagem lírica da banda, que sempre teve como base temas como satanismo, antissemitismo, violência e outras coisas do gênero, foi mudando ao longo do tempo. Por exemplo, a letra de "New Faith" soa muito mais inteligente que "Jesus Saves". Ambas tem a mesma finalidade, mas usando um vocabulário totalmente diferente.
Esse tipo de evolução não pode ser vista no Manowar. Musicalmente, a banda determinou-se a criar os mesmos tipos de riffs tradicionais, pois é o que todo fã quer ouvir. Obviamente, várias coisas diferentes foram criadas ao longo dos anos, mas vocês acham que o fã padrão de Manowar que ouvir a sua banda tocar algo novo ou diferente? Bem, o final do vídeo está aí para comprovar. Na turnê que passou pelo Brasil em 2010, a banda apresentou um repertório composto exclusivamente de músicas dos álbuns mais recentes. Algumas mais próximas de seu som padrão, outras nem tanto. Resultado: fãs indignados, protestando e queimando camisetas da banda por não terem tocado nem um clássico sequer. A banda tornou-se escrava de sua própria criação.
Acreditem, eu não odeio o Manowar, apenas não ligo para eles e não consigo acreditar que alguém consegue levar a banda a sério. E pra provar isso, deixo vocês ao som de uma das poucas músicas da banda que eu realmente acho interessante. Uma pena essa banda que poderia ter tanto potencial acabar assim como a maior piada da história desse gênero musical.


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